as letras que elegemos são as que legislam

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cardiologia, Psiqué - e Liberdade

O ser humano é o maior produtor não só de mídias, mas – e, talvez, em conseqüência disso, ao menos em parte – é também o maior produtor de linguagens com que já tivemos contato.
O que afirmo pode facilmente ser dito, assim, como aqui o foi: a partir de uma visão rasa, até infantil (não por isso não-verdadeira, entretanto com verdades mais identificáveis que em um pensamento com boa retórica) e não se fazendo necessário, porquanto, fazer referências a escritos anteriores. Entretanto, ao longo do texto introduziremos algumas referências principalmente a filósofos e lingüistas que nos ajudam, com o conteúdo que produziram, a entender nossa máquina produtora de linguagens e de mídias produtoras, por sua vez, de novas e inúmeras linguagens num processo que parece tender a um crescimento exponencial dessas criações ad infinitum.
É fácil perceber o caráter múltiplo das tentativas de comunicação humana e a conseqüente multiplicidade de linguagens: linguagem corporal; línguas naturais; linguagens escritas; linguagens híbridas; linguagem arquitetônica; linguagem artística; linguagens digitais, binárias; etc. Logo que abrirmos os olhos pela primeira vez, não simplesmente sofremos um bombardeio executado com excelência pelas linguagens que se disparam para dentro de nossas mentes, mas iniciamos o nosso ataque-resposta ao mundo, criando a nossa primeira linguagem: a curiosidade. Essa curiosidade é tão grande que seria possível se arriscar dizer que cria um leve grau de esquizofrenia – comum a todo humano com boa cognição o suficiente para criar e interpretar, portanto, uma esquizofrenia anti-patológica. Nossa criação não se dá principalmente porque gesticulamos, falamos, escrevemos ou desenvolvemos novas tecnologias, mas porque entendemos que estamos os fazendo. No início, vemos, e não só: procuramos significados no que vemos – isso com tal afinco que parece difícil imaginar o que seria ver e não achar este tipo de significação no que convencionamos chamar ou lemos como mundo-em-que-se-vive. Começamos, desde cedo, a criar sistemas de significação, a entender o funcionamento desses significados uns em relação aos outros, entender como as linguagens se interdependem, em seus hibridismos, do gestual ao digital – só assim aprenderíamos a chorar, falar, escrever, sonhar. Ou seja, antes de qualquer bombardeamento que soframos, nós é que bombardeamos o mundo com significações, nós é quem o atribuimos significados.
Com tudo que aqui foi dito em mente, fica fácil chegarmos a uma afirmação: as coisas não são o que são para nós porque existem, mas porque significam. A partir dessa nova afirmação, podemos facilmente chegar à outra: não temos acesso às coisas, mas só ao que elas significam – nosso contato com o mundo é mediado por signos e quanto melhor soubermos os ler, melhor entenderemos o ser humano, e quanto menos o entendermos, maior o risco que corremos de fazer males irreparáveis a este, e menor a possibilidade, obviamente, de ajudá-lo.
Chegando à questão do ser humano e os males que é possível causarmos à espécie - ou a cada um dos seus representantes, de forma que, pouco a pouco, afete sua totalidade – poderemos iniciar uma nova parte da discussão que aqui é proposta. Qual papel e importância da medicina? Em que medida é possível que seus profissionais de fato ajudem o Humano (ou causem mal a ele)? Porque seria importante uma boa capacidade de leitura do mundo por parte desses profissionais? Para analisar como lêem o ser humano, esses profissionais, nos valeremos principalmente da classificação dos três tipos de signos propostos por C.S.Peirce em sua Teoria Geral dos Signos.
Um, dois, três: diga “ah”
Os médicos têm um papel inegavelmente importante em nossa sociedade. Essa importância não se dá porque eles são bons no sentido cristão ou porque salvam mais vidas que um lixeiro salva todas as madrugadas – e provavelmente sem que o saiba com certeza. Eles são importantes por um privilégio que têm para acessar certas informações.
Os médicos têm acesso a uma linguagem que é obscurecida pela reflexão da luz em nossas peles, criando a umbra em tudo que ela reveste: a linguagem do nosso organismo. Por isso, esses profissionais teriam acesso ao que temos e a algo mais. Entretanto, é importante perceber que, como as outras linguagens, esta também é um sistema, que se relaciona com outros, existindo, assim, poli-semioses. Neste sentido, esta linguagem pode ser entendida como coloca Hjelmslev: o organismo funcionaria como um sistema que pode ser estudado, no campo da forma do conteúdo e da expressão, onde poderiam ser encaixados os estudos de funcionamento, morfologia; e no campo da substância da expressão e do conteúdo, onde poderiam ser verificadas as execuções desses sistemas, suas alterações, etc. Aqui queremos ressaltar a importância dessa leitura, aprofundamento teórico, busca de textos e aplicação aos estudos médicos com rigor metodológico necessário, entretanto não é a isso que mais nos atentaremos.
Primeiro, destacaremos, usando uma terminologia de C.S.Peirce, como o reduzido entendimento a respeito dos signos limita o trabalho médico hoje em dia.
Para C.S.Peirce, um filósofo, matemático, lógico, enfim, estudioso de vasto conhecimento que produziu no fim do séc.XIX e início do XX, em seus estudos de semiótica, ciência que apenas compunha uma pequena parte de sua arquitetura filosófica, os signos poderiam ser divididos em três tipos: ícone, símbolo e índice – e que fique claro que essa é uma pequena parte, também, de sua semiótica, a parte mais popular, e já aí, por ausência desse conhecimento pelos profissionais da medicina, encontramos deficiências no trabalho médico. Agora, explicaremos muito simplificadamente os tipos. O ícone é um signo que se relaciona com seu referente por semelhança ou analogia, uma relação dada por semelhanças que se poderia considerar da sua própria constituição física. O símbolo se relacionaria com o referente por uma relação arbitrária, uma lei estabelecida, uma convenção, por uma criação social. O índice se relacionaria existencialmente com o referente, como se a existência de um implicasse a existência do que esse existente significa.
O médico trabalha exatamente com o objeto que, no início do texto, concordamos ser o maior produtor de linguagens, por isso de signos, significados de todos os tipos imagináveis, e sempre atualizados. Verifiquemos como, em seu trabalho, apareceriam os diferentes signos.
É fácil concordar que o cérebro médico está mais acostumado a trabalhar com os signos icônicos. Trabalha-se com busca de semelhanças com os modelos estudados, seja na busca do significado dos desenhos, fotografias que aparecem nos livros no corpo dos pacientes, seja buscando o que destoa do modelo de pacientes sãos em pacientes com patologias, e buscando relacionar a parte que destoa a outros modelos, para identificar qual é o mal. Este tipo de raciocínio analógico teria fortes exemplos em especializações como cardiologia, otorrinolaringologia, enfim, divisões da medicina que lidam com objetos bem mais palpáveis, passíveis de um estudo morfológico que torne a ciência facilmente mais eficiente – segundo algo que proporia mais descompromissadamente, as partes da medicina cujos estudos se encaixariam no plano da expressão de Hjelmslev.
Há também áreas que estudam, como podemos facilmente perceber, objetos que se caracterizam pela presença de signos simbólicos. É o caso, por exemplo, dos psiquiatras, que precisariam, para realizar minimamente bem seus trabalhos, entender quais significados engendrados pela sociedade tem as psicopatologias de seus pacientes – as quais não se desvinculariam desse recorte cultural, das simbologias, enfim, duma sociedade.
Agora, onde ficaria o papel do signo indicial no trabalho médico? Este parece ser um tipo de signo ignorado por eles. Este signo os revelaria o indício do humano: o indício da vontade de liberdade que todo humano carrega.
Ora, de fato seria fácil afirmar que muito, no trabalho médico, utiliza-se de índices, quando, por exemplo, percebe-se que uma febre é indício de uma inflamação, etc. Entretanto, não julgaria verdadeira, nesse caso, uma afirmação tão superficial. Nesses casos, o médico não usa senão um raciocínio icônico, e julgo ser ao tipo de raciocínio que devemos nos atentar. Hoje em dia, ao se perceber uma febre, por exemplo, é fácil dizer “a garganta deve estar inflamada”. Pelo que se daria essa afirmação tão rápida e espontânea que podemos verificar cotidianamente? O que se faz, nesses casos, não é um estudo que exija raciocínios mais amplos, que embarquem muitos métodos diferentes, mas simplesmente se relaciona aquela febre, no caso, a modelos anteriores, a ocorrencias anteriores, a ocorrências estudadas ou, até, a conhecimentos populares disseminados em tradição oral. Eis mais uma relação paradigmática na área médica.
É importante, pois, que se destaque a diferença do raciocínio indicial para a causa e consequência no funcionamento do corpo. No caso da febre, por exemplo, ela atua como índice, sim, mas seria difícil afirmar que o raciocínio é de quem percebe, e muito mais fácil dizer que existe uma espécie de “racioínio” indicial, mas por parte do corpo.
O entendimento do índice por parte do médico implica numa percepção ampla, que seria consequência de uma espécie de competência do raciocinar, competência até no sentido explicitado na teoria greimasiana, onde ela é formada pelos modais (querer, saber, poder, dever) que dão condições para executar uma performance (caracterizada pelo verbo fazer). Nesta teoria semiótica greimasiana, que se dá à análise de discursos, fala-se na existência de um destinador que cria a competência de um sujeito da narrativa para chegar ao seu objeto-valor. Ora, neste caso, colocando o proficional da medicina como sujeito e a preservação da saúde do paciente como objeto-valor, quem o competencializa seriam os estudos – seus estudos criam um saber que se forma quase que exclusivamente de raciocínios icônicos. Portanto, neste sentido, é fácil afirmar que o médico não costuma ser educado para ter competência para trabalhar com signos indiciais. Portanto, sua competência para realizar a performance e chegar ao objeto-valor, a saúde do paciente, não é completa, o que nos indicaria que o objeto-valor não é plenamente alcançado, ou seja, a saúde do paciente não é totalmente considerada.
E o que nos revelaria este conhecimento dos profissionais da medicina aliado a um raciocínio indicial bem desenvolvido? Ora, ao que indica, conheceríamos o ser humano em uma plenitude que ainda parecia longe de ser conhecida, em sua integralidade: corpo, sociedade – e liberdade.
O que se percebe é que as partes que nos vem sendo reveladas do ser humano pelo médico, que deve pretender conhecer o humano, para que, só assim, possa de fato alcansar o que chamamos de seu objeto-valor, representam apenas fragmentos do humano – e as significações surgem em relações, sendo necessário, no caso, relacionar tudo ao todo para que este objeto verdadeiramente signifique tudo que o compõe e que cria suas características, seu pathos. Quais partes nos vem sendo reveladas? Quase apenas o que não é própriamente humano, mas ao que ele se relaciona: estuda-se a matéria, física, de que ele é feito e a sociedade, a qual cada um dos seres compõe, e todos juntos a são.  O ser humano, com características do humano per si, relacionado aos outros fatores igualmente importante, parece trabalho ignorado.
Conclusão
O trabalho que propomos é um em que os estudos de ciências humanas sejam incorporados aos médicos, pois de nada adiantam os conhecimentos fragmentados, já que, como nos mostrou a linguística, a filosofia, etc., as significações funcionam em relações, não em unidades.
Assim, precisamos procurar um significado mais consistente para o nosso trabalho e, com isso, conseguiremos chegar mais próximo de um objeto-valor que parece ser não exclusivamente dos que trabalham na área médica, mas de todo ser humano: a saúde humana, em seu sentido mais lato – repeitando tanto questões como as cardiológicas, as psicológicas, psiquiátricas, quanto as relacionadas à uma característica intrínseca à nossa espécie, a liberdade.
caio.gabriel