as letras que elegemos são as que legislam

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Legendas das Letras Eleitas

Os signos nos permeiam ou os permeamos: o certo é que às vezes parece mais evidente a existência deles que a nossa. Não temos acesso a nós – a não ser por mediações. Somos seres midiáticos. O que media, e, portanto, nos dá acesso à percepção e à vida são esses signos.
Se a todo fenômeno, a tudo que intuímos chamar realidade, só temos acesso através destes meios, todo estudo que pretendemos fazer, seja de qual área for, seja de que campo do conhecimento for, seja de um objeto ou de qualquer outro, este será um estudo de signos: um estudo semiótico – e é esta palavra, Semiótica, que dá nome à ciência que pretende estudar como se comportam, quais as características gerais, como significam, de quantas maneiras diferentes, usando quantos recursos cognitivos diferentes os signos nos dão acesso ao mundo. Enfim, a Semiótica pretende estudar estas mediações que, para nós, substituem as coisas, mesmo que em parte ou falsamente, mas que são a única maneira de obtermos quaisquer dados sobre o que chamamos vida, para, entendendo como funciona o acesso, entendermos os mecanismos de funcionamento do que é representado em suas bases, ou melhor, no que é conduzido e chega a nós, para, assim, facilitar a ampliação dos conhecimentos e, como defendia um dos precursores dos estudos semióticos atuais, C.S.Peirce, podermos, ao entender os signos, entender melhor o funcionamento de todas as ciências, processos físicos, biológicos, etc.
Semiótica, diacronicamente analisando, é palavra que tem origem do termo grego semeion, que significava, obviamente, signo. Poderia ser igualmente chamada simplesmente de Teoria Geral dos Signos.
O que é importante destacar é que existem 3 semióticas ou, melhor dizendo, 3 linhas de pesquisa diferentes, cada uma com um precursor diverso. São elas: a semiótica francesa, que teria surgido com o linguista francês Ferdinand de Saussure; a semiótica peirceana, originada dos estudos de C.S.Peirce, um estudioso de muitas áreas do conhecimento, tais como lógica, matemática, química, astronomia, biologia; e, por fim, a semiótica da cultura, parte dos estudos russos, que teve como um dos mais importantes pesquisadores Iuri Lotman, um estoniano.
Acompanhando estudos que se encaixam nessas três linhas de forma mais central ou mais periférica, é possível que se perceba como é apenas ficto que elas caminham paralelamente, pois, num observar mais atento, é, sem dificuldades, observável uma complementaridade teórica – já que todas essas pesquisas têm objetivos comuns, o estudo dos signos, do funcionamento sígnico. Alguns dos precursores, como Peirce e Saussure foram até mesmo contemporâneos, mas não conterrâneos, e talvez só por esse segundo fator e pelas limitações impostas pela falta de tecnologias na época não tiveram bons diálogos buscando enriquecimento de suas teorias.
Bem, agora, melhor localizados nos terrenos dos semioticistas, com os olhos menos anuviados, fica melhor para entender algumas questões: qual é esse poder dos signos; porque “as letras que elegemos são as que legislam”; e o que, afinal, isso tudo tem que ver com Legi-Signos.
Ora, de primeira, os signos fazem a intermediação, como já foi dito, seu entendimento nos ajuda na leitura de tudo que nomeamos realidade. Entretanto, não é só nessa esfera, mais geral e simplista, que observamos o poder deles. Eles, sim, legislam. O lingüista Saussure dizia que os signos são sociais e arbitrários, ou seja, nada têm eles que ver com o que representam (é importante destacar que esse teórico tratava de signos lingüísticos), mas são criados arbitrariamente nas sociedades – e só pela convenção social o significante se relacionará ao significado. Da mesma forma, Peirce falava dos legi-signos, onde poderiam ser encontrados os signos lingüísticos em sua arquitetura filosófica, já que são os que significam graças a uma lei previamente estabelecida ou, como preferiu Saussure, graças àquela convenção social. Esses legi-signos, nos estudos peirceanos, só se relacionam ao seu objeto simbolicamente e geram um interpretante ou, poder-se-ia dizer em alguns casos, só podem ser entendidos em um argumento, numa sequência lógica. Esse entendimento somente em sequência, que também poderia ser tratado como um interpretante que se forma somente em relação a outros signos, também foi pensado com idéias bem parecidas pelo francês: ele trata do valor sígnico, do significado adquirido num sistema onde cada signo tem um valor em relação à outro, trabalhando também muito com os sistemas de oposições.
Sabendo de tudo anteriormente apresentado, e sabendo que isso não seria considerado nem uma introdução à Teoria Geral dos Signos, já é possível perceber porque se pode dizer que elegemos, socialmente (e democraticamente), nossos signos e, depois, são eles que legislam, assim, durante um tempo, pouco podemos fazer sozinhos ou sem que a maioria, ao menos, convenha, para modificá-los de alguma forma.
Sim, estamos nas mãos dos signos, sejam lingüísticos ou não, e parece ser muito prudente uma busca por melhor compreensão do que são, como funcionam, enfim, do máximo que soubermos, que seja possível saber a respeito deles. Aqui, nas postagens que forem feitas, procurar-se-á discuti-los e analisar diversos objetos, fatos, notícias, acontecimentos, obras e tudo que parecer conveniente, proveitoso e até mesmo divertido de se analisar sempre com uma ótica semiótica ou sob um enfoque semioticista, de forma aberta ao diálogo, através de comentários, por exemplo, buscando um aperfeiçoamento teórico que vise uma melhor e mais fácil aplicabilidade para que entendamos também melhor e mais facilmente o que chamamos de mundo em que vivemos, onde estamos, nós mesmos, incluídos.

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